17.5.09

no telhado



Voltando para casa qualquer desses dias passados olhei para o céu e vi dois pássaros negros retintos sobre o telhado de uma casa colorindo o cinza manchado avermelhado de mais uma tarde de outono despedaçado em mim que os atentava inverossímeis trazendo consigo verdades inaceitáveis sobre as coisas do mundo perturbadoras no ar derramando sobre as cabeças um líquido insólito de gosto amargo viscoso como animais incríveis que eram aqueles visitantes do meu sono de todas as manhãs claras e cobertas de um cinismo sem cor sentido ou grito por alguém que ouça o que não digo o não escrito revelado pelos olhos mentirosos fabricados pelos seres vazios que perseguem e inundam poros de futilidades transbordantes todas as horas de meses infindáveis intoleráveis por mim desde que desaprendi a caminhar sem o chão meu protetor minha reta minha meta meu em tudo que acreditava e não existe mais por um segundo inexplicável incompreensível insuperável e o céu continuou a escurecer naquela mais uma tarde em que não pude e não quis me reconhecer no espelho de todas as pessoas que passam dentro de mim e desviam ou entram e saem sem que eu nada sinta pois o que senti agora é neblina fria branca que esquenta a noite o dia e a tarde me faz sorrir e chorar e continuar e continuar e os animais enormes ameaçadores ainda parados no telhado.


17/05 01:11

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