31.5.09

Vezenquando finjo estar segura, mas me consumo de medo. invento outros universos, novos personagens, levezas que desconheço, mas acabo me torturando com o velho peso da carapaça. suspeito que sou prisioneira de mim, incapaz de ir além do limite da pele, da palavra pronunciada. sei que tenho nas mãos a chave, mas insisto em esquecer que ela abre. ergo as pálpebras, renasço e estou morta no instante seguinte. recuso o remédio, covarde, afasto a cura. estou fechada nesse mundo menor.
00:37

30.5.09



.cerrou os olhos buscando o esquecimento lentamente levou as mãos ao peito era ela fincando suas unhas na pele afastando a carne desviando os músculos à procura de antigas umidades secando a mancha viscosavermelhada que escorria pelos braços chorava e doía e chorava e caía de joelhos num chão lamacento perdida entre nervos musgos febres e tremores escavava o próprio corpo tentando plantar uma semente que sabia já estar morta.



in house of the rising sun, nina simone.

29.5.09


.eu quero a salvação e a perdição, ainda que me perca ou me salve por quealquer coisa que certamente não vale a pena e não é preciso dizer que não é preciso dizer, eu sou o lado esquerdo.

24.5.09

uma noite qualquer por aí




"...apenas sei que chegaste e que esta tua chegada modificará em mim todas as coisas que se tornaram suaves todas as cordialidades ou amenidades que construí nesse tempo de absoluta sede ansiava por ti como quem anseia pela salvação ou pela perdição porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devasta por dentro te direi apenas para sobreviver mas já não quero sobreviver já não quero apenas ir adiante é preciso que qualquer coisa abata esta letargia porque já não admiro precariedades por que não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto ainda que tudo isso seja um lento processo de morte um enveredar em direção ao mais terrível.."


Caio Fernando Abreu

- migraine ^^

23.5.09

Quarta-feira, 21:00 na praça da Sé.
Dentre os dias, no interior de todos eles, esse foi especialmente perturbador.
Tive uma sensação estranha de não estar em mim e mesmo assim acompanhar todos os meus movimentos sem sentir absolutamente nada. Deve ser resultado das dores. Deve ser.
As tonturas também, mas essas são novidade, não as conheço bem.
O negócio é que depois de um dia estranhíssimo fui assistir a uma palestra na OAB. Perícia no Local do Crime. Lá pelas tantas, quase no final, uma mulher bizarra aparece fazendo perguntas, assim, é, assustadoras. Não sei, eu pelo menos fiquei assustada. Ela parecia ter saído de um dos filmes do Zé do Caixão, não que eu os assista, mas parecia. “Por favor, posso fazer uma pergunta? É que eu preciso muito ser examinada por um legista” (não, ela não estava morta) “eu preciso de um adEvogado por que nasceu um coágulo no céu da minha boca, meus vizinhos bruxos me disseram que são eles tentando me pegar, fizeram sangrar no céu”. Nessa hora eu já tinha deixado de rir, tremia. Não vou citar aqui as demais macabrices, inventei essa agora.
Voltei pra casa. Passei numa lan e adivinha?
Piorei.
Mas vai passar.

20.5.09

"Você tá muito autista hoje, Carol."

17.5.09

no telhado



Voltando para casa qualquer desses dias passados olhei para o céu e vi dois pássaros negros retintos sobre o telhado de uma casa colorindo o cinza manchado avermelhado de mais uma tarde de outono despedaçado em mim que os atentava inverossímeis trazendo consigo verdades inaceitáveis sobre as coisas do mundo perturbadoras no ar derramando sobre as cabeças um líquido insólito de gosto amargo viscoso como animais incríveis que eram aqueles visitantes do meu sono de todas as manhãs claras e cobertas de um cinismo sem cor sentido ou grito por alguém que ouça o que não digo o não escrito revelado pelos olhos mentirosos fabricados pelos seres vazios que perseguem e inundam poros de futilidades transbordantes todas as horas de meses infindáveis intoleráveis por mim desde que desaprendi a caminhar sem o chão meu protetor minha reta minha meta meu em tudo que acreditava e não existe mais por um segundo inexplicável incompreensível insuperável e o céu continuou a escurecer naquela mais uma tarde em que não pude e não quis me reconhecer no espelho de todas as pessoas que passam dentro de mim e desviam ou entram e saem sem que eu nada sinta pois o que senti agora é neblina fria branca que esquenta a noite o dia e a tarde me faz sorrir e chorar e continuar e continuar e os animais enormes ameaçadores ainda parados no telhado.


17/05 01:11

16.5.09

"A little girl with nothing wrong is all alone...eyes wide open...always hoping for the sun...and she'll sing her song to anyone...that comes along...fragile as a leaf in autumn...just fallin' to the ground...without a sound...crooked little smile on her face...tells a tale of grace...that's all her own."

15.5.09

.parada-ridícula- porra-louca-solitária.



“As cores se chocavam contra minhas retinas. E tudo era: belo não: não belo tudo: as coisas: elas próprias: as coisas verdadeiras: e profundas belas como: pode ser belo: também o terrível eu: me afastava entre céu e inferno tentando ver: beleza no fogo carbonizando: suas carnes claras o líquido: escorria farto e as: pessoas correndo enlouquecidas: vastas e miúdas: ruas. Fui afundando aos poucos numa vertigem em direção sem direção às cores multifacetadas multifacientes as faces e as formas e depois os roxos do amor e do nojo sobre um branco silêncio em branco como contra um muro nem fundo sem fim.
...

Talvez me firam, mas, quando isso acontecer, das minhas veias vai escorrer tanta loucura que eles não voltarão nunca do inferno onde serão jogados por meu sangue.”


Caio Fernando Abreu

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as lágrimas fogem dos meus olhos
um sussurro ecoa no vento
quem veio não está mais aqui
para mim os dias continuam todos iguais
um sonho para sepultar
sinto o peso de cem anos no coração

luto.

Hoje a Tarde


...pelo chão desfilam a minha frente uma cadência de folhas secas, caídas do outono.. deixam um rastro melancólico de lembranças e frustrações.
Reúnem-se e re espalham-se desenhando no concreto cinza-azulado uma dança deformada, imagens desfiguradas, rostos desconhecidos.
O som do vento tocando a copa das arvores entrelaça o movimento dos galhos às minhas percepções, suavemente ele desliza na superfície do meu corpo, refresca meu rosto na ardência da claridade. O sol sempre mais imponente que meus passos, mais devastador que minhas fraquezas...ele castiga o descaminho que tenho tecido todas as manhãs com o fino fio cintilante das minhas veias.
Adormeci nesse início de tarde.
As rosas ao redor decoram o deserto dos meus olhos com cores vibrantes, formas pouco definidas, confusas e translúcidas como meus pensamentos.
Presas por caules esguios e delicados elas permanecem acima do ar. Lindas. Inatingíveis. Presa por um erro torto e prematuro permaneço submersa em uma paralisia letárgica onde tudo é fantasia e alucinação, onde as formas são vultos e os vultos fantasmas que me circundam e seguem valsando com a desgraça que me acomete.
Esvazio.
Ergo com os braços uma outra tentativa, uma chance de voltar pra casa, mas escorre entre meus dedos apenas mais um poema de desamor.
Levanto da mesa e caminho até a saída. O calor do asfalto me entorpece.
Um passo de cada vez. Continuo em pedaços. Continuo...
14/05 13:03
---> uma tarde linda. li. escrevi. fui ao cinema. sozinha. sozinha.

12.5.09

Nu.



"se tocada por dedos bruscos, me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardei indisfarçáveis remendos das muitas quedas. Embora sempre os tenha evitado, aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia..."

Caio Fernando Abreu

Há muito sem escrever, transbordante essa madrugada, penso sobre o trecho acima..não me ocorre nada pois este é absolutamente "explícitodidático" - aglutinação? justaposição? invenção? burrice? quem sabe?

bom.." confesso-lhe, - , que quando o meu ser é como que invadido por uma espécie de febre e não ouve mais a voz da razão, todo esse tumulto é amainado diante de uma criatura como aquela, que, tranquila e feliz, percorre o círculo acanhado de sua existência..."

*Werther*

Pontilhismo.

Paul Signac - Portrait de M. Félix Fénéon, 1890


Originado pelo movimento impressionista, o Pontilhismo tem como técnica, nascida na França uma forma que consiste em pintar o que é observado com a aplicação de pequenos pontos e manchas de cor que, por meio de justaposição, tornam-se uma mistura óptica para o observador. O menor uso de pinceladas visíveis é uma técnica baseada na Lei das Cores Complementares estudada pelo químico Michel Chevreul no Século XIX. A idéia é que as cores deixem de ser misturadas nas paletas e sejam misturadas direto na tela, a justaposição já mencionada, deixando ao olho a tarefa de reconstruir o tom desejado pelo pintor. Por este motivo, os quadros desse movimento precisam ser grandes e vistos de longe.
]
Lindíssima.
Meu desejo de conceber expressões artísticas desse tipo invariavelmente terminam em uma frustração comedida e, por vezes, em uma satisfação pretensiosa em saciar-me com a simples elevação de ser capaz de apenas admirar.
"A Arte existe para que a verdade não nos destrua"
Nietzsche

11.5.09

Amarelinha.





“...Maga ficava triste, apanhava uma folha seca na calçada e conversava com ela, colocando-a sobre a palma da mão e acariciando-a suavemente. Depois, arrancava-lhe a polpa com grande cuidado e deixava as nervuras, fazendo com que um delicado fantasma verde fosse desenhado na pele de sua mão...”


Julio Cortázar




Neue Wache, Berlin.
A escultura, 'Mãe com o seu filho morto' de Käthe Kollwitz, simboliza o sofrimento dos civis durante a 2a Guerra Mundial.
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s2 paixão reprimida por fotografia, mais uma pra lista s2
.vez o outra me sinto um esboço que não deu certo, um filme pedante, uma escultura mal feita e assimétrica...eu, um borrão de tintas convulsas, uma deformidade latente...a arte me seduz.

Av. paulista.








Uma noite solar cobria meu rosto naquele instante.
.sentia nas mãos o traçado fino frio do vento cortando os poucos espaços vazios ao meu redor, entorpecendo meus pensamentos, paralisando os ossos.
.olhei e um homem cantava algum tipo de cordel, um repentista talvez. tocava um triângulo de metal nas mãos.brilhava.ele cantava.era noite.eu ouvia.
.virei o rosto e havia uma mulher..roupas velhas e sujas. Nos ombros uma mala de sofrimentos, um passado longo e pesado, era curva, era cicatriz, era ela. alimentava os pombos, pássaros famintos.estes devoravam frenéticos, disputavam o peixe, estava cru, um cheiro forte de desgraça me repugnou. eram homens aqueles animais.
.pessoas continuavam a passar, riam, zombavam, o homem, a senhora.eu estava ali.
.submersa. dei algumas informações, pessoas perdidas, a cidade estava viva. Carros passavam, luzes, músculos, ternos e tatuagens. A cidade estava viva.
Eu estava no centro do universo.





--> percepções de mais uma noite na paulista, cada detalhe dela me encanta intensamente, alias, intensamente tem sido minha palavra preferida nos últimos dias. e daí?
aquele vento, aquela brisa inebriante que a lua derrama sobre meus olhos todas as noites, todos os sons confusos culminam em uma estranha harmonia dissonante entorpecendo meus ouvidos, desviando meu caminho.
Um lugar, um estado de espírito.


impressões pessimistas.





"É uma verdade incrível como a existência da maior parte dos homens é insignificante e destituída de interesse, vista exteriormente, e como é surda e obscura sentida interiormente. Consta apenas de tormentos, aspirações impossíveis; é o andar cambaleante de um homem que sonha através das quatro épocas da vida, até à morte, com um cortejo de pensamentos triviais. Os homens assemelham-se a relógios a que se dá corda e trabalham sem saber a razão. E sempre que um homem vem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda novamente, para repetir, mais uma vez, o velho e gasto estribilho da eterna caixa de música, frase por frase, com variações imperceptíveis.”

Schopenhauer



É incontestável que a fome de viver, até para os mais relutantes como eu, é a fonte de todo sofrimento. Fato: existir é sofrer.
Até no desejo mais primário de uma criança, ou na profunda dor adolescente, ou até mesmo nas aspirações mais nobres das “pessoas mais maravilhosas” – aqui vai uma ironia – a ausência do objeto (seja ele coisa ou pessoa) faz nascer o sofrimento. A Ausência.
Facilmente confundo, confundimos todos, a felicidade como oposto, inverso do sofrimento, mas na verdade ela é sua mais pura conseqüência. Sim. O prazer instantâneo da satisfação de um desejo é ser feliz, pontualmente, mas é. Esse é o ciclo que nos torna tão miseráveis, tão humanos. A felicidade é tão somente a ausência da infelicidade. Simples assim.

10.5.09

Wonderland



"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você ah se ousássemos."

Caio Fernando Abreu



---> Primeiro post, primeiro blog.
... rompendo em torno de mim as teias sempre mais sólidas tecidas com o tempo, meus medos e hábitos..conseqüência de muitos ferimentos, grandes e pequenos...repudiando o definitivo, fazendo de tudo para um novo começo....
.hora de dormir, mais uma semana, mais uma semana, mais uma semana.