22.11.09

"Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer? Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma outra alegria além de ti. Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar. Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara.”

CFA

7.11.09

“..as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, [...], A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar..”



Saramago

1.10.09

Dos teus olhos florescem infinitos labirintos movediços..flutuam sobre mim revestindo o ar de cores sempre tão suaves...são indiscretos, olhos impiedosos que insistem em talhar sobre minha pele fendas mais profundas, como se desejassem tocar o limite do corpo..reluto, mas sei que me perco cada dia mais intensamente nas tuas teias..meus braços seguem apenas o traçado fino dos teus braços porque além deles não existe mundo..desisto de desvencilhar minhas pernas das tuas armadilhas, entrego meu corpo à insônia leve a que fui arremessada pelo teu amor. à margem e sem consulta..nada mais em mim será o mesmo depois da sua chegada..
Y esq' con solo un cachito
Un pedacito de tu luz,
Yo llegaria al cielo
O me caeria al suelo,
Por ti amor

29.9.09

Sabe, tem chovido e feito tanto frio esses últimos dias...mas apesar deles, apesar das dores e da dificuldade em respirar, apesar da febre, de não conseguir falar e tão pouco andar direito, apesar de ter todos os motivos pra estar ao menos desanimada ou irritada, e acredite, por muito menos eu fico, apesar de todos os motivos estou feliz e altiva, vejo o dia com os olhos de quem anseia por viver cada segundo dele porque e somente porque você está aqui. basta.

26.9.09

.não sei se vc percebeu mas não chove desde aquele dia em que nos encontramos, é estranho não chover assim nessa época do ano, é estranho que todas as noites sejam tão claras quando vc está por perto, quando a umidade da tua boca cobre meus olhos e não vejo mais tardes e manhãs em que não sejamos apenas nós. não vou ficar te contando aqui quando exatamente o mundo e tudo dentro dele ficou assim insignificante, ou me esforçando pra lembrar a primeira vez a segunda e a terceira e todas as outras vezes que desejei seus tecidos largos em volta do meu corpo.não, disso tudo vc já sabe. a verdade é que tem feito sol aqui, bem aqui, vc ta vendo? Besteira minha perguntar, desde o inicio vc sempre viu, sempre sentiu que seriamos..é, que seríamos. eu tenho medo, sei la se já te confessei isso, seria mais uma entre tantas e tantas confissões silenciosas que tecemos todos os dias...então agora vc já sabe, medo porque queima, e dói.as vezes sangra.as vezes mel, outras um liquido leitoso azulado que resolvi chamar de...não importa.mas é ele que nasce nos meus olhos sempre que te vejo, escorre por dentro consumindo meus tecidos, meus músculos e se alargando por toda parte até tomar de assalto pernas braços pele e qualquer movimento em que nao estejam os seus. porque fora deles não existo e não respiro e. nao me deixa.

30.8.09

.estive pensando essa noite que se adensam em mim vertiginosos sentidos incontroláveis, a sensação de que a qualquer instante posso me tornar um monte confuso de infinitos sons repetidos me aterroriza. não deveria. estar constantemente no limite de todas as coisas, sempre apostando tudo que tenho, muitas vezes que não tenho, é um habito ruidoso que me fere e eleva todos os dias. apesar dele, apesar de todo cinismo tecido há tempos ser alicerce do meus castelo imponente de ironias, fraquezas, invenções das quais perdi o controle e me perdi tantas e tantas vezes no interior das suas teias luminosas e sedutoras, apesar de carregar dentro do corpo sensações indomáveis e apesar disso e daquilo e de não admitir a própria hipocrisia que me circunda, assumo que fui vil. assim no sentido abstrato de vileza porque não apostei quando deveria, não perdi tudo que tinha nem ganhei coisa nenhuma e por três vezes neguei a mim mesma porque somos ou ao menos eu sou toda o que sinto pois meus pensamentos já não são nítidos, já não revelam nenhuma verdade e agora levanto, caminho, faço tarefas corriqueiras, digo palavras que todos dizem, e.

29.8.09

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)
CFA

22.8.09

.de repente fui me aproximando dos seus passos tomando coragem aos poucos pra dizer tudo aquilo que desenhei tantas e tantas vezes nos cadernos espalhados lá de casa mas travei outra vez e ficou tudo preso aqui dentro sem que você visse ou alcançasse qualquer coisa que te fizesse entender e talvez conseguir falar não foi nunca fácil pra nós eu sei sempre te vi tão maior do que eu poderia ser um dia qualquer tive certeza de que seria real de que teus lábios não fossem apenas fogo e tempestade e pudessem me dizer me tocar e não sei mais exatamente o que me espera no mundo que se alarga cada dia mais profundamente na sua ausência na esfera deformada que me enterra pela manhã quando seus olhos não me invadem devastadores rompendo do meu corpo toda vida que não posso nem quero ver mais e ainda audazes devoram a carcaça que insisto em carregar nas costas talvez por ser assim ridícula anêmica exausta de desejar outra que não seja a ressonância da sua voz ao meu ouvido: que seja doce que seja doce que seja doce.

11.8.09

.e se eu te disser assim baixinho que fechei os olhos pra ver teu rosto e que nessa hora meu corpo todo foi envolvido por teus fios cheios de claridade, aqueles que você tece em silêncio..aqueles mesmos que desenharam o contorno da sua pele no ar quando quis te beijar, mas meus lábios tocaram apenas um sorriso leve de borboletas coloridas...você se desfez mais uma vez no céu, ficou de repente flutuando entre as arvores mais lindas e as estrelas mais prateadas..foi assim que de assalto enlacei de dentro de mim um pássaro de asas velozes e em seu dorso com os olhos vendados recolhi do espaço todas as tuas levezas, teus tecidos tão bonitos e te refiz e te toquei e.

29.7.09

"Não era estranho o seu hermetismo. Embora parecesse expansiva e cordial, tinha um temperamento solitário e um coração impenetrável."
Cem anos de Solidão
__
ah essa dormência x(

25.7.09

Quem tem consciência pra se ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
Secos e Molhados

22.7.09

Ontem acordei subitamente dentro de uma madrugada densa onde as paredes moviam-se através do meu corpo estampando uma ordem caótica de cicatrizes e quedas. A cima do meu rosto havia vidros trincados pelas lembranças de um tempo recente em que meus pés não eram movediços e meus lábios melancólicos, eram vértices afiados e famintos os da minha insônia. Sobre mim um teto deformado pelas invenções caia como lâminas translúcidas abrindo profundas fendas ao meu redor, assaltando dos olhos a pouca luz que ainda me corta. Ao avesso estavam as convicções que me trouxeram até aqui, eram fontes de eterno frio e engano. Eu sou meu próprio outono desabitado, arranco uma a uma as pétalas e folhas da minha pele, certamente para ferir menos, tropeçar em outras pedras que não sejam meus pés.
23:40

20.7.09


eu sei que pra você foi sempre assim difícil, meu temperamento difícil

16.7.09

"Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse "para onde estamos indo?" — não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas,
pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: "estamos indo sempre para casa".
Raduan Nassar

15.7.09

...nem sei o que tanto me chama atenção em você, esse seu jeito de falar todas as coisas como se em cada palavra não houvesse uma semente, essa intolerância que te prende às coisas com as quais não sabe lidar, isso tudo tão distante de mim me descerra...talvez sejam os olhos..eu sei, as palavras ficam assim guardadas em mim mas é por medo de dizê-las de uma vez e você fazer aquela outra coisa de fingir que não foi importante, que não foi de repente incrível e na verdade você nem ficou sem ar e eu to inventando sozinha...tava frio quando eu quis te abraçar e você deu um passo pra trás, foi andando com os olhos nas minhas mãos e dizendo por dentro que não sabia se iria voltar e eu não entendi nada e tentei te puxar e lembrei de quando você disse que eu era mulher de no máximo três palavras e eu respondi..lembra o que respondi? eu sei que você não lembra...

14.7.09

..e de repente acordei um desses dias e vi que havia me tornado esquecimento, esquecimento e invenção. não doeu.

5.7.09

Não sei escrever francamente, me perdoe..estou completamente perdida no interior das invenções, não lamente por mim. Ontem foi uma noite de excesso criativo, minhas personagens estavam especialmente exuberantes e cortei mais alguns espaços do tecido que insiste em me ligar à realidade. Não aceito mais a realidade. E não é porque não possa mais conviver com ela, mas porque não há nela mais o que superar. Não há pessoas ou qualquer das coisas do mundo que não me inspire um sono profundo, uma vontade de pertencer a toda essa miséria que paira sobre os espíritos e as ruas como a dormência sobre mim. não me refugio em lugar nenhum nem deixo de considerar a possibilidade de já ter mudado de idéia no fim desse retrocesso, é apenas um instante.
"Não tenho tempo para descrever meus planos. Eu deveria falar muitos sobre As Horas e o que descobri; como escavo lindas cavernas por trás das personagens; acho que isso me dá exatamente o que quero; humanidade, amor, profundidade. A idéia é que as cavernas se comuniquem e venham à tona".


Virgínia Woolf, anotação de diário, 30 de agosto de 1923

2.7.09

...você é assim tão distante, tão passageira, neblina fria...
eu disse que me sentia ridícula, que me sentia de repente insignificante
como se de tanto insistir e te recriar todos os dias você se tornasse mais miragem
mais mistério na névoa branca que me enfraquece desde que não te vi,
desde de que senti uma respiração maior que não era a minha
e lamento por você estar assim tão fechada, assim tão dentro de si e não queira e não possa me ver...

1.7.09

"...amassando com minhas patas sagitárias o ventre mole deste mundo, consumindo neste pasto um grão de trigo e uma gorda fatia de cólera embebida em vinho..."


Raduan Nassar

29.6.09

Com os olhos curvos sobre a mesa deixei que os dedos deslizassem pelo cabelo até ter as mãos paralisadas na nuca. toquei uma lembrança menor, mais uma das que aprendi a separar do corpo.
Invadi meu jardim de criações fantasiosas, o lugar onírico onde cultivei realidades simuladas, sentimentos fabricados. uma vida toda imaterial.
Rompi em torno de mim todas as peles, levantei o queixo sobre a carcaça movediça que me vendava os pés.

27.6.09



I try to believe what i feel these days

It makes life much easier for me

It's hard to decide what is real these days

When things look so dizzy to me

I already know my children's children's faces

Voices that i've heard before

There's always more

I feel like a thousand years have passed

I'm younger than i used to be

I feel like the world is my home at last

I know everyone that i meet

Somewhere in the music i can hear the bells

I heard a thousand years before

There's always more

22.6.09


Confesso um esforço consciente para não lembrar dos muitos fins de tarde que passei ali... quase sempre exausta de um dia cheio de preocupações adolescentes.
Como me enfastiavam as preocupações adolescentes!
Saía do colégio e amortecida eu costumava caminhavar pelo centro da cidade em direção ao velho museu, lá ainda funciona a repartição de cordas do conservatório.
Era ali que me refugiava do mundo, entre as árvores anêmicas eu sentava, tirava o tênis e enterrava os pés na grama fresca.
Uma lembrança tênue cerra meus olhos..já estava noite, sei que comprei morangos e fui até o museu.
Ouvi de longe o gear grave e firme de um cello. lindo e imponente ele desfilava pelo ar tornando todos os outros sons menores, pessoas falando, carros, buzinas, o som de todas as coisas era secundário.
.não importa o que digam, a música é sempre a arte mais pura, música é instinto.
e foi instinto que caiu sobre meu corpo como uma lança, minha pele respondeu imediatamente aos violinos, violas e contrabaixos que se seguiram. era uma harmonia densa e larga, talvez um romântico ou um impressionista, ou um mágico tecendo fios de ouro ao redor dos meus sentidos. então desconheci as pessoas e as preocupações adolescentes, não sabia mais o que era mundo..sabia apenas de mim no instante em que me fiz ressonância, vibrato, prestíssimo...

21.6.09

sem que te visse imaginei teu rosto, teus passos e tudo mais
não entendo essa ansiedade que me invade sempre que penso sobre você, esse desespero contido, essas mãos geladas, nem sei...
continuo esperando por mais um dos teus silêncios, me consumo com ausência do que não conheço, do que não toquei ou ouvi ou nem sei
de qualquer forma nem sabes que existo nem que anseio nem nada que me dê qualquer esperança de que saibas talvez
mas todos os dias vou até você e cubro meu corpo com a chama fria das suas dores
te leio e leio outra vez, as vezes choro ou sei lá
migalhas de um alguém que simplesmente relou no meu braço um dia desses
é verdade quando te disse que sou inventiva, eu sou
tecelã de inventos te recrio com cores cada vez mais vivas, encontros, conversas e não sei o que, tardes inteiras
você sabe, é mais fácil desenhar na folha em branco

14.6.09

"..e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço."
Raduan Nassar

13.6.09

¬¬


“...fiquei imaginando de longe a pele fresca do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, meus olhares não se continham, e a minha vontade incontida era de cavar o chão com as próprias unhas
e nessa cova me deitar à superfície e me cobrir inteiro de terra úmida...”


Eu sei que pra você aquela noite não foi mais uma daquelas nossas muitas noites daqueles outros tempos em que estivemos lá. Você lembra de lá, não tenho duvidas.
Eram noites intermináveis aquelas dos nossos sonhos, percorríamos sempre estradas cada vez mais sinuosas, ousávamos. Não adianta me falar que você sente muito, eu sei que você não sente muito.
Acordávamos e logo seus olhares ásperos pousavam sobre mim, vestiam meu corpo com o peso de te amar. Era macio te amar tanto quanto eram seus cabelos espalhados nas minhas costas. Faziam cócegas e eu reclamava, lembra? Não responda, eu sei que você não lembra.

10.6.09

O que você vê?


Ocell de Foc, Ernst


"(...) eu, epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto, arrolando na minha fala convulsa a alma de uma chama, um pano de verônica e o espirro de tanta lama, misturando no caldo deste fluxo o nome salgado da irmã, o nome pervertido de Ana, retirando da fímbria das palavras ternas o sumo do meu punhal, me exaltando de carne estremecida na volúpia urgente de uma confissão (que tremores, quantos sóis, que estertores!) até que meu corpo lasso num momento tombasse docemente de exaustão."


Raduan Nassar.





menos inventiva, altina. insultosa.

puramente marcial. suntuosa.

7.6.09

Não tem jeito, não posso mais ficar. Quero sair daqui. me salva? me salva?

6.6.09



"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
Caio Fernando Abreu
Líquida.

2.6.09

"Não esquece que tô sempre com vc. Sempre com vc, dentro e fora desse mundo que te fecha."

31.5.09

Vezenquando finjo estar segura, mas me consumo de medo. invento outros universos, novos personagens, levezas que desconheço, mas acabo me torturando com o velho peso da carapaça. suspeito que sou prisioneira de mim, incapaz de ir além do limite da pele, da palavra pronunciada. sei que tenho nas mãos a chave, mas insisto em esquecer que ela abre. ergo as pálpebras, renasço e estou morta no instante seguinte. recuso o remédio, covarde, afasto a cura. estou fechada nesse mundo menor.
00:37

30.5.09



.cerrou os olhos buscando o esquecimento lentamente levou as mãos ao peito era ela fincando suas unhas na pele afastando a carne desviando os músculos à procura de antigas umidades secando a mancha viscosavermelhada que escorria pelos braços chorava e doía e chorava e caía de joelhos num chão lamacento perdida entre nervos musgos febres e tremores escavava o próprio corpo tentando plantar uma semente que sabia já estar morta.



in house of the rising sun, nina simone.

29.5.09


.eu quero a salvação e a perdição, ainda que me perca ou me salve por quealquer coisa que certamente não vale a pena e não é preciso dizer que não é preciso dizer, eu sou o lado esquerdo.

24.5.09

uma noite qualquer por aí




"...apenas sei que chegaste e que esta tua chegada modificará em mim todas as coisas que se tornaram suaves todas as cordialidades ou amenidades que construí nesse tempo de absoluta sede ansiava por ti como quem anseia pela salvação ou pela perdição porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devasta por dentro te direi apenas para sobreviver mas já não quero sobreviver já não quero apenas ir adiante é preciso que qualquer coisa abata esta letargia porque já não admiro precariedades por que não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto ainda que tudo isso seja um lento processo de morte um enveredar em direção ao mais terrível.."


Caio Fernando Abreu

- migraine ^^

23.5.09

Quarta-feira, 21:00 na praça da Sé.
Dentre os dias, no interior de todos eles, esse foi especialmente perturbador.
Tive uma sensação estranha de não estar em mim e mesmo assim acompanhar todos os meus movimentos sem sentir absolutamente nada. Deve ser resultado das dores. Deve ser.
As tonturas também, mas essas são novidade, não as conheço bem.
O negócio é que depois de um dia estranhíssimo fui assistir a uma palestra na OAB. Perícia no Local do Crime. Lá pelas tantas, quase no final, uma mulher bizarra aparece fazendo perguntas, assim, é, assustadoras. Não sei, eu pelo menos fiquei assustada. Ela parecia ter saído de um dos filmes do Zé do Caixão, não que eu os assista, mas parecia. “Por favor, posso fazer uma pergunta? É que eu preciso muito ser examinada por um legista” (não, ela não estava morta) “eu preciso de um adEvogado por que nasceu um coágulo no céu da minha boca, meus vizinhos bruxos me disseram que são eles tentando me pegar, fizeram sangrar no céu”. Nessa hora eu já tinha deixado de rir, tremia. Não vou citar aqui as demais macabrices, inventei essa agora.
Voltei pra casa. Passei numa lan e adivinha?
Piorei.
Mas vai passar.

20.5.09

"Você tá muito autista hoje, Carol."

17.5.09

no telhado



Voltando para casa qualquer desses dias passados olhei para o céu e vi dois pássaros negros retintos sobre o telhado de uma casa colorindo o cinza manchado avermelhado de mais uma tarde de outono despedaçado em mim que os atentava inverossímeis trazendo consigo verdades inaceitáveis sobre as coisas do mundo perturbadoras no ar derramando sobre as cabeças um líquido insólito de gosto amargo viscoso como animais incríveis que eram aqueles visitantes do meu sono de todas as manhãs claras e cobertas de um cinismo sem cor sentido ou grito por alguém que ouça o que não digo o não escrito revelado pelos olhos mentirosos fabricados pelos seres vazios que perseguem e inundam poros de futilidades transbordantes todas as horas de meses infindáveis intoleráveis por mim desde que desaprendi a caminhar sem o chão meu protetor minha reta minha meta meu em tudo que acreditava e não existe mais por um segundo inexplicável incompreensível insuperável e o céu continuou a escurecer naquela mais uma tarde em que não pude e não quis me reconhecer no espelho de todas as pessoas que passam dentro de mim e desviam ou entram e saem sem que eu nada sinta pois o que senti agora é neblina fria branca que esquenta a noite o dia e a tarde me faz sorrir e chorar e continuar e continuar e os animais enormes ameaçadores ainda parados no telhado.


17/05 01:11

16.5.09

"A little girl with nothing wrong is all alone...eyes wide open...always hoping for the sun...and she'll sing her song to anyone...that comes along...fragile as a leaf in autumn...just fallin' to the ground...without a sound...crooked little smile on her face...tells a tale of grace...that's all her own."

15.5.09

.parada-ridícula- porra-louca-solitária.



“As cores se chocavam contra minhas retinas. E tudo era: belo não: não belo tudo: as coisas: elas próprias: as coisas verdadeiras: e profundas belas como: pode ser belo: também o terrível eu: me afastava entre céu e inferno tentando ver: beleza no fogo carbonizando: suas carnes claras o líquido: escorria farto e as: pessoas correndo enlouquecidas: vastas e miúdas: ruas. Fui afundando aos poucos numa vertigem em direção sem direção às cores multifacetadas multifacientes as faces e as formas e depois os roxos do amor e do nojo sobre um branco silêncio em branco como contra um muro nem fundo sem fim.
...

Talvez me firam, mas, quando isso acontecer, das minhas veias vai escorrer tanta loucura que eles não voltarão nunca do inferno onde serão jogados por meu sangue.”


Caio Fernando Abreu

________________________________


as lágrimas fogem dos meus olhos
um sussurro ecoa no vento
quem veio não está mais aqui
para mim os dias continuam todos iguais
um sonho para sepultar
sinto o peso de cem anos no coração

luto.

Hoje a Tarde


...pelo chão desfilam a minha frente uma cadência de folhas secas, caídas do outono.. deixam um rastro melancólico de lembranças e frustrações.
Reúnem-se e re espalham-se desenhando no concreto cinza-azulado uma dança deformada, imagens desfiguradas, rostos desconhecidos.
O som do vento tocando a copa das arvores entrelaça o movimento dos galhos às minhas percepções, suavemente ele desliza na superfície do meu corpo, refresca meu rosto na ardência da claridade. O sol sempre mais imponente que meus passos, mais devastador que minhas fraquezas...ele castiga o descaminho que tenho tecido todas as manhãs com o fino fio cintilante das minhas veias.
Adormeci nesse início de tarde.
As rosas ao redor decoram o deserto dos meus olhos com cores vibrantes, formas pouco definidas, confusas e translúcidas como meus pensamentos.
Presas por caules esguios e delicados elas permanecem acima do ar. Lindas. Inatingíveis. Presa por um erro torto e prematuro permaneço submersa em uma paralisia letárgica onde tudo é fantasia e alucinação, onde as formas são vultos e os vultos fantasmas que me circundam e seguem valsando com a desgraça que me acomete.
Esvazio.
Ergo com os braços uma outra tentativa, uma chance de voltar pra casa, mas escorre entre meus dedos apenas mais um poema de desamor.
Levanto da mesa e caminho até a saída. O calor do asfalto me entorpece.
Um passo de cada vez. Continuo em pedaços. Continuo...
14/05 13:03
---> uma tarde linda. li. escrevi. fui ao cinema. sozinha. sozinha.

12.5.09

Nu.



"se tocada por dedos bruscos, me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardei indisfarçáveis remendos das muitas quedas. Embora sempre os tenha evitado, aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia..."

Caio Fernando Abreu

Há muito sem escrever, transbordante essa madrugada, penso sobre o trecho acima..não me ocorre nada pois este é absolutamente "explícitodidático" - aglutinação? justaposição? invenção? burrice? quem sabe?

bom.." confesso-lhe, - , que quando o meu ser é como que invadido por uma espécie de febre e não ouve mais a voz da razão, todo esse tumulto é amainado diante de uma criatura como aquela, que, tranquila e feliz, percorre o círculo acanhado de sua existência..."

*Werther*

Pontilhismo.

Paul Signac - Portrait de M. Félix Fénéon, 1890


Originado pelo movimento impressionista, o Pontilhismo tem como técnica, nascida na França uma forma que consiste em pintar o que é observado com a aplicação de pequenos pontos e manchas de cor que, por meio de justaposição, tornam-se uma mistura óptica para o observador. O menor uso de pinceladas visíveis é uma técnica baseada na Lei das Cores Complementares estudada pelo químico Michel Chevreul no Século XIX. A idéia é que as cores deixem de ser misturadas nas paletas e sejam misturadas direto na tela, a justaposição já mencionada, deixando ao olho a tarefa de reconstruir o tom desejado pelo pintor. Por este motivo, os quadros desse movimento precisam ser grandes e vistos de longe.
]
Lindíssima.
Meu desejo de conceber expressões artísticas desse tipo invariavelmente terminam em uma frustração comedida e, por vezes, em uma satisfação pretensiosa em saciar-me com a simples elevação de ser capaz de apenas admirar.
"A Arte existe para que a verdade não nos destrua"
Nietzsche

11.5.09

Amarelinha.





“...Maga ficava triste, apanhava uma folha seca na calçada e conversava com ela, colocando-a sobre a palma da mão e acariciando-a suavemente. Depois, arrancava-lhe a polpa com grande cuidado e deixava as nervuras, fazendo com que um delicado fantasma verde fosse desenhado na pele de sua mão...”


Julio Cortázar




Neue Wache, Berlin.
A escultura, 'Mãe com o seu filho morto' de Käthe Kollwitz, simboliza o sofrimento dos civis durante a 2a Guerra Mundial.
________________________
s2 paixão reprimida por fotografia, mais uma pra lista s2
.vez o outra me sinto um esboço que não deu certo, um filme pedante, uma escultura mal feita e assimétrica...eu, um borrão de tintas convulsas, uma deformidade latente...a arte me seduz.

Av. paulista.








Uma noite solar cobria meu rosto naquele instante.
.sentia nas mãos o traçado fino frio do vento cortando os poucos espaços vazios ao meu redor, entorpecendo meus pensamentos, paralisando os ossos.
.olhei e um homem cantava algum tipo de cordel, um repentista talvez. tocava um triângulo de metal nas mãos.brilhava.ele cantava.era noite.eu ouvia.
.virei o rosto e havia uma mulher..roupas velhas e sujas. Nos ombros uma mala de sofrimentos, um passado longo e pesado, era curva, era cicatriz, era ela. alimentava os pombos, pássaros famintos.estes devoravam frenéticos, disputavam o peixe, estava cru, um cheiro forte de desgraça me repugnou. eram homens aqueles animais.
.pessoas continuavam a passar, riam, zombavam, o homem, a senhora.eu estava ali.
.submersa. dei algumas informações, pessoas perdidas, a cidade estava viva. Carros passavam, luzes, músculos, ternos e tatuagens. A cidade estava viva.
Eu estava no centro do universo.





--> percepções de mais uma noite na paulista, cada detalhe dela me encanta intensamente, alias, intensamente tem sido minha palavra preferida nos últimos dias. e daí?
aquele vento, aquela brisa inebriante que a lua derrama sobre meus olhos todas as noites, todos os sons confusos culminam em uma estranha harmonia dissonante entorpecendo meus ouvidos, desviando meu caminho.
Um lugar, um estado de espírito.


impressões pessimistas.





"É uma verdade incrível como a existência da maior parte dos homens é insignificante e destituída de interesse, vista exteriormente, e como é surda e obscura sentida interiormente. Consta apenas de tormentos, aspirações impossíveis; é o andar cambaleante de um homem que sonha através das quatro épocas da vida, até à morte, com um cortejo de pensamentos triviais. Os homens assemelham-se a relógios a que se dá corda e trabalham sem saber a razão. E sempre que um homem vem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda novamente, para repetir, mais uma vez, o velho e gasto estribilho da eterna caixa de música, frase por frase, com variações imperceptíveis.”

Schopenhauer



É incontestável que a fome de viver, até para os mais relutantes como eu, é a fonte de todo sofrimento. Fato: existir é sofrer.
Até no desejo mais primário de uma criança, ou na profunda dor adolescente, ou até mesmo nas aspirações mais nobres das “pessoas mais maravilhosas” – aqui vai uma ironia – a ausência do objeto (seja ele coisa ou pessoa) faz nascer o sofrimento. A Ausência.
Facilmente confundo, confundimos todos, a felicidade como oposto, inverso do sofrimento, mas na verdade ela é sua mais pura conseqüência. Sim. O prazer instantâneo da satisfação de um desejo é ser feliz, pontualmente, mas é. Esse é o ciclo que nos torna tão miseráveis, tão humanos. A felicidade é tão somente a ausência da infelicidade. Simples assim.

10.5.09

Wonderland



"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você ah se ousássemos."

Caio Fernando Abreu



---> Primeiro post, primeiro blog.
... rompendo em torno de mim as teias sempre mais sólidas tecidas com o tempo, meus medos e hábitos..conseqüência de muitos ferimentos, grandes e pequenos...repudiando o definitivo, fazendo de tudo para um novo começo....
.hora de dormir, mais uma semana, mais uma semana, mais uma semana.