29.6.09

Com os olhos curvos sobre a mesa deixei que os dedos deslizassem pelo cabelo até ter as mãos paralisadas na nuca. toquei uma lembrança menor, mais uma das que aprendi a separar do corpo.
Invadi meu jardim de criações fantasiosas, o lugar onírico onde cultivei realidades simuladas, sentimentos fabricados. uma vida toda imaterial.
Rompi em torno de mim todas as peles, levantei o queixo sobre a carcaça movediça que me vendava os pés.

27.6.09



I try to believe what i feel these days

It makes life much easier for me

It's hard to decide what is real these days

When things look so dizzy to me

I already know my children's children's faces

Voices that i've heard before

There's always more

I feel like a thousand years have passed

I'm younger than i used to be

I feel like the world is my home at last

I know everyone that i meet

Somewhere in the music i can hear the bells

I heard a thousand years before

There's always more

22.6.09


Confesso um esforço consciente para não lembrar dos muitos fins de tarde que passei ali... quase sempre exausta de um dia cheio de preocupações adolescentes.
Como me enfastiavam as preocupações adolescentes!
Saía do colégio e amortecida eu costumava caminhavar pelo centro da cidade em direção ao velho museu, lá ainda funciona a repartição de cordas do conservatório.
Era ali que me refugiava do mundo, entre as árvores anêmicas eu sentava, tirava o tênis e enterrava os pés na grama fresca.
Uma lembrança tênue cerra meus olhos..já estava noite, sei que comprei morangos e fui até o museu.
Ouvi de longe o gear grave e firme de um cello. lindo e imponente ele desfilava pelo ar tornando todos os outros sons menores, pessoas falando, carros, buzinas, o som de todas as coisas era secundário.
.não importa o que digam, a música é sempre a arte mais pura, música é instinto.
e foi instinto que caiu sobre meu corpo como uma lança, minha pele respondeu imediatamente aos violinos, violas e contrabaixos que se seguiram. era uma harmonia densa e larga, talvez um romântico ou um impressionista, ou um mágico tecendo fios de ouro ao redor dos meus sentidos. então desconheci as pessoas e as preocupações adolescentes, não sabia mais o que era mundo..sabia apenas de mim no instante em que me fiz ressonância, vibrato, prestíssimo...

21.6.09

sem que te visse imaginei teu rosto, teus passos e tudo mais
não entendo essa ansiedade que me invade sempre que penso sobre você, esse desespero contido, essas mãos geladas, nem sei...
continuo esperando por mais um dos teus silêncios, me consumo com ausência do que não conheço, do que não toquei ou ouvi ou nem sei
de qualquer forma nem sabes que existo nem que anseio nem nada que me dê qualquer esperança de que saibas talvez
mas todos os dias vou até você e cubro meu corpo com a chama fria das suas dores
te leio e leio outra vez, as vezes choro ou sei lá
migalhas de um alguém que simplesmente relou no meu braço um dia desses
é verdade quando te disse que sou inventiva, eu sou
tecelã de inventos te recrio com cores cada vez mais vivas, encontros, conversas e não sei o que, tardes inteiras
você sabe, é mais fácil desenhar na folha em branco

14.6.09

"..e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço."
Raduan Nassar

13.6.09

¬¬


“...fiquei imaginando de longe a pele fresca do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, meus olhares não se continham, e a minha vontade incontida era de cavar o chão com as próprias unhas
e nessa cova me deitar à superfície e me cobrir inteiro de terra úmida...”


Eu sei que pra você aquela noite não foi mais uma daquelas nossas muitas noites daqueles outros tempos em que estivemos lá. Você lembra de lá, não tenho duvidas.
Eram noites intermináveis aquelas dos nossos sonhos, percorríamos sempre estradas cada vez mais sinuosas, ousávamos. Não adianta me falar que você sente muito, eu sei que você não sente muito.
Acordávamos e logo seus olhares ásperos pousavam sobre mim, vestiam meu corpo com o peso de te amar. Era macio te amar tanto quanto eram seus cabelos espalhados nas minhas costas. Faziam cócegas e eu reclamava, lembra? Não responda, eu sei que você não lembra.

10.6.09

O que você vê?


Ocell de Foc, Ernst


"(...) eu, epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto, arrolando na minha fala convulsa a alma de uma chama, um pano de verônica e o espirro de tanta lama, misturando no caldo deste fluxo o nome salgado da irmã, o nome pervertido de Ana, retirando da fímbria das palavras ternas o sumo do meu punhal, me exaltando de carne estremecida na volúpia urgente de uma confissão (que tremores, quantos sóis, que estertores!) até que meu corpo lasso num momento tombasse docemente de exaustão."


Raduan Nassar.





menos inventiva, altina. insultosa.

puramente marcial. suntuosa.

7.6.09

Não tem jeito, não posso mais ficar. Quero sair daqui. me salva? me salva?

6.6.09



"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
Caio Fernando Abreu
Líquida.

2.6.09

"Não esquece que tô sempre com vc. Sempre com vc, dentro e fora desse mundo que te fecha."