21.12.10

hoje o dia vai ser cinzento não vou abrir os olhos nem dizer palavra nenhuma e se você não quiser, se você não vier, se não puder ou sei lá se tudo der errado e eu continuar aqui, que seja torto, que fique errado manchado, marcado não levando, não lamento, não digo nada

Do lado de dentro da minha pele há uma escultura de sabão

Máscara de um animal violento coberto de terra fria e cativeiro

O lábio rasgado no rosto diz como é difícil ser entranha

Bicho arredio, metade força, metade chão

Dentro das minhas mãos há uma boneca de porcelana

Uma tinta cor de rosa e uma mágoa de algodão

Queria mesmo é ser toda de argila

Feita pra desmonte, por fora de esmalte

Por dentro, solidão.

8.8.10

".o velho macaco na casa de louças, falando ainda por cima nesse tom trágico como protótipo duma classe agônica... sai de mim, carcaça"

r.n.

18.7.10

.é contra o osso rijo que me dilacero para tomar outras formas.. abandono assim sem querer o esqueleto para que minha carne assuma outras perspectivas. é doloroso e as vezes desejo que jamais volte a acontecer, mas involuntariamente estou ali, crescendo, sangrando, desejando me encaixar sem jeito no que me circunda. que esses novos ossos sejam mais leves, quebrem com mais facilidade, ou que tudo não mude tão rapidamente, que eu não seja outra ao amanhecer, que eu seja sempre a mesma.

16.7.10

Sun in my mouth
Eu caminharei para longe até que minhas coxas
Estejam imersas em flores ardentes
Pegarei o sol na minha boca
E saltarei no ar maduro, vivo
De olhos fechados
Para açoitar a escuridão
Nas curvas dormentes do meu corpo
Penetrarei com dedos de suave domínio
Com a castidade de gaivotas
Completarei o mistério da minha carne.
cummings

23.5.10

.e o meu desejo é cobrir todo corpo com a terra úmida da tua boca, afundar irremediável e vasta no interior das tuas dormências. não reconheço esse lugar por onde estou sendo arrastada, não vejo nenhuma claridade que não seja na insônia obscura da tua presença. porque te pertenço, apesar de eventualmente me olhar no espelho e dizer três vezes “-”, sou sua. lentamente me desconstruo, acordo outra. sou aos poucos aquilo que me fazes, a forma convulsa que me dás.não fujo do teu labirinto, não me esquivo das tuas armadilhas.indefesa, adolescente, nua arremesso meu destino na sua direção.não sei a que me entrego, basta saber você.

17.4.10

.e se eu acordar qualquer dia desses e o contorno do teu corpo não estiver na cama, e se ainda levantar de olhos fechados e meus pés nao tocarem nas tuas roupas espalhadas pelo chão, e se ainda eu insistir em andar pelo corredor e não sentir teu cheiro em cada móvel, em cada espaço vazio - quero tanto sentir teu cheiro - e a tuas coisas transparentes não me encherem daquela chama de antes... vc lembra de antes? - eu não quero nunca dizer esses antes - e se aquele antes ficar assim como algo que passou, uma sombra dessas que desaparece de repente num dia de verão. e se tudo isso acontecer sem que nada aqui dentro consiga evitar. ainda, ainda assim terei te amado, fica comigo, continua comigo, gosto tanto de vc.

21.3.10

.não, eu não sou tão triste assim quanto teus olhos vêem. as vezes repentinamente consigo ver o sol, um reflexo torto dos meus olhos curvos sobre a lama ao redor dos pés. assim, me diz que eu nem sou tão sozinha? é que as vezes vou acordar na pontinha da cama, quase caindo. sabe aquela queda que? aquela tão diferente do abismo largo dos meus lençóis, não sinta pena. amanha ou depois ou sei lá, espero doer logo ou que venha antes do próximo ano porque posso simples assim não suportar, e cair, diferente da queda que, mas aquela sem fim, ferida. e dela talvez não me levante.talvez não queira, talvez goste de lá.talvez seja macio e esteja tão distante do ar e me dissolva tão profundamente nele que meus fios jamais serão encontrados e aos poucos bem aos poucos existir perca todo significado .eu, ventania.

14.3.10

.assim tão perdida, tão desesperadamente desabitada.tenho medo.a noite sinto que desabo aos poucos.aos pedaços.recortada.

31.1.10

“ cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro – ergo as pálpebras e tudo volta a renascer”